quarta-feira, 20 de outubro de 2004

Blagues de Esquerda contra Bush

Não, não sou adepto de Bush. Se fosse americano (cruzes, canhoto), votaria Kerry. Devo, no entanto salientar o seguinte: não vai ser Bush a dar a vitória a Bush, vai ser Kerry a dar a vitória a Bush. Será que não existe nenhum gabinete de comunicação de Kerry que comunique (é, afinal, a sua principal função) aos "anti-bush" que só estão a ajudar Bush a ser reeleito?
Tanta tentativa muito pouco acreditada de desacreditar Bush, só vai resultar num descrédito em todas as outras afirmações. Logo, à reeleição de Bush, precisamente o que não se quer (vd. no Blasfémias alguns episódios).
Parece que já descobri onde o nosso PM descobriu as maravilhosas técnicas de comunicação que este Governo usa...

Algo vai mal neste Portugal

Estou adoentado. Sentei-me no sofá, com as pernas embrulhadas numa manta. Só me faltava mesmo o tricot... Jantei, liguei na SporTV para ver o Real Madrid. Pelo meio ía fazendo umas incursões pelo comando à procura dos canais costumeiros. Sic Comédia (novo), Sic Radical (pelas séries de culto – Galáctica, Seinfeld, etc.), História, e os de notícias, nomeadamente o nosso, o Sic Notícias.
Parei no último. Estava a dar o costumeiro debate “esquerda/direita” (um pequeno parêntisis – aquele debate na RTP1 foi assustador e JPP tem razão no artigo que escreve no Público; o mais assustador é que todos contribuem para essa discussão, Sic Notícias não é excepção; quanto mais confuso estiver o povo, melhor). As figuras: Jorge Coelho e Manuel Monteiro. Quando liguei estava no fim. O tema: [ainda] Marcelo Rebelo de Sousa e as pressões (vd. Onde estão as perguntas? de JPP).
Teria sido bom que todos tivessem ouvido a história de Manuel Monteiro sobre as pressões. Ele afirmou, peremptoriamente, que foi impedido pelo partido do Governo de participar num debate para o qual tinha sido convidado, o primeiro de todos na Antena1, nas últimas eleições Europeias.
Eu não costumo dar muito crédito ao Dr. Manuel Monteiro, mas o que ele contou é mais grave que o caso Marcelo.
Marcelo Rebelo de Sousa é um comentador, Manuel Monteiro representa um partido político. Quer se goste ou não, tem o direito constitucional de dar a conhecer as suas propostas aos eleitores em absoluta igualdade com todos os outros. E quanto a mim o caso é mais grave que o de Marcelo pois, numas eleições, os prejudicados são os eleitores que necessitam do maior número de informações possíveis a fim de tomarem, em consciência, a sua decisão de voto. E nos dois casos que Manuel Monteiro trouxe à praça pública, as entidades envolvidas foram a RTP e a RDP! Que raio de serviço público é este que impede um Partido Político de participar num debate onde estão todos os outros representados?
Algo vai mal, neste Portugal.

Futebolices

Perdoem-me os fanáticos adeptos do Benfica.

Gosto de futebol, repito, de FUTEBOL. Isto é, gosto de ver aquele conjunto de homens a lutar pela posse de uma bola de “catchú”, tratando-a como se da sua amante se tratasse, passando-a pelos adversários num bailado ritmado e atirando-a com mestria e destreza ultrapassando a última das defesas.
Gosto muito do meu clube do coração. Amo o Benfica, e é com muita paixão e sofrimento que vejo os jogos do meu clube. Lembro com saudade os tempos de Magnusson, Thern, Mozer, Ricardo, Veloso, Diamantino, Chalana, Humberto Coelho e Néné, o sempre em pé (não me lembro de lhe ver uma mancha nos calções).
Era novo, muito novo...
Muitos dizem que amam o seu clube. Bom, eu também, e julgo que da maneira mais apaixonada que pode haver. Amo com a força da razão. Amar alguém ou alguma coisa (se tal fosse possível), não é, simplesmente, sentir aquela paixão ardente que nos consome, é usar a força de um coração que bate forte, com o uso de uma razão que a sustenta.
Pois bem, eu vi o Benfica-Porto. Sim, é golo. Aliás, é um frango à Ricardo que alguns tentam esconder. Mas, sinceramente, não foi só isso que eu vi. O que eu vi foi o Porto a dominar a primeira parte, a jogar a seu belo prazer e a fazer daquela equipa o que lhe apetecia. Aproveitou um mau atraso do Fyssas (ou deverei dizer Fossas) e marcou um golo muito bonito. E na segunda, meus senhores, o que eu vi foi um Porto “à Mourinho”, frio, à espera, dando a sensação de vantagem a uma equipa que, atabalhoadamente procurava o golo sem saber muito bem como.
Talvez não merecessemos perder, não questiono, mas do que vi, também não fizemos nada para ganhar.
E o que me entristece mais é que temos um lote de jogadores que não são maus de todo, mas que, em momentos cruciais, tremem que nem varas verdes. De que serve o talento se não for acompanhado de cérebro? Simão é o melhor exemplo de todos. Capaz de momentos de verdadeiro talento, de verdadeira “arte futebolística”, quando chegam os jogos em que mais se precisa dele... PUFF! É um ar que se lhe deu. Nuno Gomes? Bom, já nem aquilo que fazia bem – segurar a bola e passá-la com mestria – é capaz. Ficou muito melhor o Benfica depois de ter sido expulso (muito bem expulso, diga-se). Petit, talvez cansado do jogo de 4.a feira, não foi o costumeiro “pau para toda a recuperação”, e Manuel Fernandes, talvez muito verde para estes embates, foi uma sombra do que já demonstrou poder fazer.
Enfim, o Benfica que eu vi não mereceu ganhar. E não se esqueçam, eu gosto de FUTEBOL, não dos árbitros e/ou dirigentes.
E com tudo isto, uma cortina de fumo se levantou. É que, meus senhores, está aí o Orçamento de Estado. Talvez JPP tenha razão, fala-se demais sobre futebol neste país...

terça-feira, 19 de outubro de 2004

Durmo, logo pago!

Um último comentário antes de me ir deitar e dedicar à leitura durante as próximas horas (sou fanático pela leitura na cama).

Um destes dias ainda vejo o fiscal das finanças a entrar-me pela casa adentro inspeccionando quantas horas durmo e se as declaro.
Por enquanto é só nos hóteis...
Até ver!

P.S. Obrigado à blogosfera! É indiscutivelmente um belíssimo meio para que nada nos passe ao lado. No caso ao Blasfémias. Um grande bem haja para todos, anónimos ou não.

"Alfarrabices"

Olho para a estante e reencontro-me com Ruben Borba de Moraes, indiscutivelmente um dos maiores bibliófilos do mundo. O Bibliófilo Aprendiz. Um livro delicioso, cheio de pequenas histórias que nos mostram com simplicidade este mundo, tantas vezes considerado obscuro e acessível só a poucos, onde o único Rei, a única lei, o único deus, é o LIVRO. Mas não um livro qualquer, é o livro que se colecciona, o livro que mostrou pela primeira vez ao mundo a poesia de Pessoa ou os monstros de lugares longínquos e quase inacessíveis, aquele que pertenceu a determinado coleccionador como Graulier ou D.Manuel II ou onde Camilo Castelo Branco deixou as suas sarcásticas notas.
Cresci por entre os livros. Meu Pai é alfarrabista de profissão, eu sigo atrás dele. A princípio com reservas. O comércio não era para mim. Agora com paixão.
Por isso, sempre que puder, deixarei aqui gravadas algumas notas sobre livros, pessoas, curiosidades e outros assuntos relacionados com o prazer de coleccionar. Sobre esse prazer, sobre esse encanto que são os livros antigos, não posso ser eu a falar. Deus não me deu o talento para o fazer como eles, os livros, merecem. Deixo-o para quem sabe. Aqui vão três pequenos textos sobre a leitura, o livro e os bibliófilos.

"Não há talvez dias da nossa infância que tenhamos tão intensamente vivido como aqueles que julgámos passar sem tê-los vivido, aqueles que passámos com um livro preferido. Tudo quanto, ao que parecia, os enchia para os outros, e que afastávamos como um obstáculo vulgar a um prazer divino: a brincadeira para a qual um amigo nos vinha buscar na passagem mais interessante, a abelha ou o raio de sol incomodativos que nos obrigavam a erguer os olhos da página ou a mudar de lugar, as provisões para o lanche que nos obrigavam a levar e que deixávamos ao nosso lado no banco, sem lhes tocar, enquanto, sobre a nossa cabeça, o sol diminuía de intensidade no séu azul, o jantar que motivara o regresso a casa e durante o qual só pensávamos em nos levantarmos da mesa para acabar, imediatamente a seguir, o capítulo interrompido, tudo isto, que a leitura nos devia ter impedido de perceber como algo mais do que a falta de oportunidade, ela pelo contrário gravava em nós uma recordação de tal modo doce que, se ainda hoje nos acontece folhear esses livros de outrora, é apenas como sendo os únicos calendários que guardámos dos dias passados, e com a esperança de ver reflectidas nas suas páginas as casas e os lagos que já não existem”
O Prazer da Leitura, Marcel Proust.


"Falar de livros é a melhor das prosas."
O Bibliófilo Aprendiz, O Biliófilo Aprendiz

"Conheci Lucas Corso quando me veio visitar com O Vinho de Anjou debaixo do braço. Corso era um mercenário da bibliofilia, um caçador de livros por conta alheia. Isso inclui as mãos sujas e o verbo fácil, bons reflexos, paciência e muita sorte. Também uma memória prodigiosa, capaz de se lembrar em que recanto poeirento de um alfarrabista dorme esse exemplar pelo qual pagam uma fortuna."

O Clube Dumas, Artur Pérez-Reverte


sábado, 16 de outubro de 2004

Vontade de Emigrar

«Fui tratada pelo meu partido como uma ilustre desconhecida. Ninguém me conhece na minha secção, fui riscada dos cadernos eleitorais e, agora, não posso votar nem ser eleita». EXPRESSO, 16.10.2004

Fico triste e com vontade de emigrar por ver o PSD correr com os seus melhores quadros. Afinal é só Portugal quem perde... Nunca concordei com as políticas de Manuela Ferreira Leite. Mas acredito que, tal como no PS, é bom não dispensar quem de melhor tem a política nacional. Afinal, quer se concorde ou não, quer se pertença à mesma família política ou não, só a excelência pode levar este pobre país a algum lado.

Má qualidade na Democracia

Marques Mendes diz que “há perda de qualidade na democracia”. Com um amigo falava, há pouco tempo, na forma como a sociedade olha para os políticos. Comentámos esta coisa estranha que é a necessidade de os políticos se aproximarem do povo, daquilo que, demagogicamente se chama de “país real”. Lembrámos os gregos, cultura onde os políticos eram admirados, respeitados e ouvidos precisamente porque eram mais cultos e mais inteligentes que a população geral, e não tinham receio de assumir e demonstrar isso. Relembro, para os esquecidos, que nos tempos de uma Secretaria de Estado que queria ser Ministério e que nunca o foi (o Primeiro Ministro na época lá teria as suas razões) se afirmou que Chopin tinha composto Concertos para Violino. Pois, é esse mesmo senhor que é agora Primeiro Ministro.

Fundamentalistas de Esquerda

Curioso chamar Butiglione "fundamentalista religioso” que tende a impor os seus valores religiosos a todos por via de lei.
É estranho que os religiosos assumidos sejam fundamentalistas e os demagogos de uma esquerda serôdia que já não devia existir não. Fico contente por não pertencer a essa “esquerda”. Haja Deus.

Regresso não anunciado

Retorno aos blogs picado por uma grande abelha chamada “Blogosfera” que José Pacheco Pereira introduziu no meu quotidiano. Esperemos que seja desta.
A blogosfera é, de facto, um espaço privilegiado de opinião. Existe para contrariar os que querem silenciar um direito fundamental de qualquer cidadão num estado democrático. Por mais que alguns digam o contrário, a sua simples existência demonstra-o. E a verdade é que ninguém passa sem ela, nem mesmo aqueles que num programa de rádio (Pessoal & Transmissível, TSF) afirmavam lerem todos os livros que lhe chegavam semanalmente para comentar num espaço que já deixou de o ser. Deve dizer-se que esse Sr., de seu nome próprio Marcelo, atira nesse programa um blague contra JPP dizendo qualquer coisa do género, as horas que JPP passa a navegar na internet eu passo a ler, como se JPP pertencesse àquela lamentavel estatística dos iliterados. O seu blog, as suas crónicas, os seus comentários mostram o contrário. JPP é do melhor que temos em Portugal (sou insuspeito, não faço parte do seu espectro político).

quarta-feira, 1 de setembro de 2004

A Maior Dor Humana

Nada mais oportuno. Chegou o "Barco do Aborto" ao largo da costa portuguesa. O Governo impediu-o de atracar nos portos nacionais sob razões que, sob o ponto de vista jurídico não faço ideia se válidas. Também não interessa.
Camilo Castelo Branco deu o título de "A Maior Dor Humana" a um soneto dedicado ao seu inimigo de estimação Teófilo Braga, depois de este ter perdido a sua filha. Camilo nunca foi grande poeta, mas apesar do mau feitio era um homem sensível, e este é, talvez, o melhor poema que alguma vez escreveu.
Sei o que sentiu quando vi o sangue que jorrava por onde deveria sair o meu filho daqui a meses. Sei o que sentiu quando vi a minha mulher a passar aquelas portas duplas que nunca param de bater uma na outra. Sei o que sentiu quando olhei para uma pequena imagem onde deveria ser visível o meu filho e onde apenas se via nada.
Chorei! Chorei muito! Continuarei a chorar a criança que nunca viu a luz do dia...

Não me interessa o barco...