quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

Os portugueses vistos por Pessoa

Pessoa
Eis um belíssimo retrato de nós próprios. É pena que em Portugal haja pouca gente com esta capacidade de se analisar a si próprio antes de olhar para os outros, não admira que Pessoa tenha sido, na verdade, um estrangeiro no seu próprio país.

"Porque o facto significativo acerca dos portugueses é que eles são o povo mais civilizado da Europa. Eles nascem civilizados porque nascem aceitadores de tudo. Neles nada há do que os antigos psiquiatras costumavam chamar misoneísmo, o que significa apenas ódio às coisas novas; gostam francamente de mudar e do que é novo. Não possuem elementos estáveis, como os franceses, que só fazem revoluções para exportação.
Os portugueses estão sempre a fazer revoluções. Quando um português se vai deitar faz uma revolução porque o português que acorda na manhã seguinte é diferente. É precisamente um dia mais velho, um dia mais velho sem dúvida nenhuma. Outros povos acordam todas as manhãs no dia de ontem; o amanhã está sempre a vários anos de distância. Mas não esta tão estranha gente. Move-se tão rapidamente que deixa tudo por fazer, incluindo ir depressa. Não há nada menos ocioso que um português. A
única parte ociosa do país é a que trabalha. Daí a sua falta de evidente progresso."
Álvaro de Campos, Fragmentos in LANCASTRE, Maria José de, Fernando Pessoa Uma Fotobiografia, p.33

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

Bibliofilias

Nas minhas deambulações pelas enormes livrarias de Madrid, principalmente uma chamada Casa del Libro (que inveja), encontrei este livro:
baez
Fernando Báez, Historia Universal de la Destrucción del Libro: de las tablillas sumerias a la guerra de Irak, Barcelona, Destino, 2004.
É curioso que o livro comece e acabe exactamente no mesmo lugar. A destruição de livros é, afinal, a destruição de um pedaço da nossa herança cultural e, portanto, a de um pedaço de nós.
Felizmente faço parte daqueles cuja profissão tenta fazer exactamente o contrário. É privilégio que não consigo contabilizar. Pela minha curtíssima experiência de 10 anos na livraria de meu Pai são incontáveis os exemplares que já se completaram, os livros que se retiraram da morte certa tanto por incúria dos seus proprietários como por vontade da natureza.
Talvez seja esse o maior legado de todos os livreiros alfarrabistas.

De Regresso

Puerta_del_Sol_Madrid1
Estou de regresso de Madrid... Que pena.

quarta-feira, 27 de outubro de 2004

Trabalho a quanto obrigas

Trabalho a quanto obrigas.
"Quero agora aqui anunciar, se faz favor, que isto aqui" do trabalho, "é uma cambada de gatunos" de tempo.
Estou impossiilitado. Prometo regressar assim que me levarem tudo.

sexta-feira, 22 de outubro de 2004

A Origem do (des)Governo de Santana

zepovinho

Muito se tem falado da péssima prestação deste Governo de Pedro Santana Lopes. Não tenciono pôr em causa as críticas que, justamente diga-se, têm sido postas a lume àquilo que parece estar a tornar-se num incêndio de proporções ainda maiores que a catástrofe que nos levou as florestas. Pedro Santana Lopes é um péssimo cidadão, um péssimo político e um convencido dos três costados com traços de uma realeza que já não existe. A gestão danosa que fez do município de Lisboa (quem lá vive e/ou trabalha compreende o que quero dizer), a gestão da sua imagem como a coisa mais importante da carreira política e a comunicação ao país com a foto da família e do beijo ao anel do Santo Padre demonstram-no sem qualquer margem para dúvidas. Pior ainda, consegue transformar pessoas competentes como Morais Sarmento numa triste falta de habilidade política.
Mas em toda esta discussão não tenho visto ninguém comentar a verdadeira causa do descalabro em que este país se encontra. Gostaria de lembrar o passado recente (não, não é o PS que aí vem): Durão Barroso.
Talvez seja oportuno lembrar que:
1. Durão Barroso tudo fez para que não houvesse eleições antecipadas;
2. Durão Barroso escolheu Pedro Santana Lopes para o suceder, quebrando laços de solidariedade óbvios, o mais evidente com Manuela Ferreira Leite.
3. Durão Barroso conhecendo Pedro Santana Lopes, sabendo muito bem que é mais vaidoso que político, que o seu propósito é o seu exclusivo interesse, que se não fosse Primeiro Ministro, até era capaz de estar hoje na Quinta das Celebridades (relembro o triste programa da SIC em que participou fazendo-se passar por Primeiro Ministro - mostrou-se um belíssimo treino), podia, com facilidade, ter feito uma previsão do que iria acontecer a este pequeno (não só do ponto de vista geográfico) país.
Daqui decorre que Durão Barroso não pensou em Portugal quando aceitou o cargo europeu. Se o tivesse feito, teria ficado como era sua obrigação. Aliás, convém também relembrar que outros não aceitaram o cargo exactamente por essas razões. Durão Barroso disfarçou o seu interesse pelo país transformando a sua sucessão numa novela sem sentido, quando ela já estava mais que decidida (Sampaio não escapa aqui a algumas responsabilidades). Durão Barroso pensou em si e na ambição (legítima, claro, mas já não tão legítima se a qualquer preço) de altos vôos no teatro internacional.
Eu até o compreendo, porque viver num país como este só dá mesmo vontade de emigrar o quanto antes. E acredito que depois de ter de lidar com verdadeiros energúmenos ao mais alto nível, tenha crescido essa vontade inata de querer partir com a "Valise de Carton”. Eu partiria sem hesitar um só segundo.
Mas Durão Barroso era um alto dirigente com responsabilidades, com compromissos assumidos perante o seu país e em vez de os assumir até ao fim, deixou-nos um bando de incompetentes intratáveis, um deles passeando-se com umas quantas musas da comunicação qual Don Juan.
Durão Barroso é um político hábil, inteligente e firme, qualidades que a Europa talvez necessite. No entanto, esqueceu-se de nós, abandonou-nos num momento difícil.
Não é de todo sustentável que Durão Barroso possa ser responsabilizado pelas más, ou deverei dizer péssimas, decisões políticas deste governo. Essas são da exclusiva responsabilidade dos seus intervenientes. Mas já o é quando pensamos que tudo isto poderia ter sido evitado se o interesse nacional estivesse verdadeiramente em primeiro plano como é pedido a um líder de um partido com vocação de poder e, mais ainda, a um Primeiro Ministro eleito e em exercício.
Foi Portugal quem saiu prejudicado com o negócio. Só para não variar é sempre o Zé Povinho que sofre...

Mais do mesmo

Soros


É livro que vai para a prateleira com a mesma velocidade que entrou. É mais do mesmo. Ele é filmes, ele é livros, ele é tudo e mais alguma coisa para dizer o que já sabemos: Bush não pode ser reeleito...
Mas provavelmente vai!!!

quinta-feira, 21 de outubro de 2004

Serviço Público de Televisão


Não sou perito em comunicação, bem longe disso. No entanto atrever-me-ei, a propósito das declarações de Morais Sarmento, a fazer alguns comentários do ponto de vista de um simples espectador sobre esta polémica.
Em primeiro lugar, que significa "serviço público de televisão"?
1. Quererá dizer que se devem apresentar programas exclusivamente de índole cultural, informativa e formativa?
2.Quererá dizer que cabe na programação, além dos já referidos, programas de entretenimento, devendo apenas ser doseados no tempo de acordo com as necessidades formativas e/ou informativas do momento?
3.Quererá dizer que a RTP terá de passar todo o tipo de programas - entretenimento, formação, informação, etc. - para agradar a "gregos e troianos"?
4.Ou quererá simplesmente dizer que a RTP deve passar o tipo de programação que agrada à maioria da população?
Tenho para mim que agradar a "gregos e troianos" é impossível. Logo, serviço público não é passar todo o tipo de programas, simplesmente porque não é possível. Também considero que o povo simples não merece que o "serviço público" passe exclusivamente por uns quantos intelectuais, professores, políticos e jornalistas. Portanto, a primeira hipótese também pode ser excluída. A quarta hipótese parece-me muito mais de acordo com as leis do mercado e a segunda a mais "politicamente correcta".
Eu não entendo que a RTP, simplesmente por ser de capitais públicos, não possa ser uma espécie de empresa privada que se submeta às leis do mercado. A única condição é que respeite as regras da concorrência livre e justa. No caso de se assumir esta posição as declarações de Morais Sarmento não teriam qualquer cabimento e seriam absolutamente condenáveis por definição.
Mas parece-me evidente que o modelo definido para a RTP não é o de mercado, mas sim o de um serviço que o Estado presta aos cidadãos. Estes, por sua vez, pagam esse serviço através dos seus impostos, o que me parece uma tremenda injustiça, em tudo semelhante ao caso da educação. É que haverão muitos cidadãos a pagar por um serviço que não usam e, pior, que não querem. Como exemplo, perguntem a José Pacheco Pereira se quer pagar para ver um jogo de futebol? E, no entanto, esse jogo pode, com facilidade, ser considerado serviço público.
Voltemos à prestação de serviços pela RTP. Assumindo esse modelo, de facto, o Ministro Morais Sarmento tem toda a legitimidade para fazer as afirmações que fez. É que, parece-me, a definição de "serviço público", de tão volátil que é, tem de ser assumida pelos responsáveis da tutela pois a sociedade não é, por princípio, consensual, devendo aquela [a tutela] assumir as responsabilidades das suas decisões.
Daqui podemos concluir que, assumindo este modelo, a RTP mudará de rumo a cada eleição legislativa, a cada novo governo ou a cada novo ministro. E não me parece ser este o melhor caminho. Será apenas um adiar constante, de discussão em discussão, sem se encontrar nenhuma solução definitiva.
Em suma, ou estamos prontos a assumir a responsabilidade política de tal modelo para a RTP, com todos os custos económicos e políticos que isso representa, incluindo o facto de o Ministro da tutela afirmar que é ele quem manda na programação da RTP (não querendo com isto dizer que a pluralidade da informação possa ser posta em causa), quanto mais não seja pela nomeação dos responsáveis da empresa, ou partimos para a única solução que me parece coerente - a privatização.

P.S.: Ainda a propósito das declarações do Ministro Morais Sarmento, como muito bem afirma JMF, o problema não está nas afirmações em si, mas no contexto político em que as fez. Revelou uma tremenda falta de oportunidade que não lhe conhecia. Tenho Morais Sarmento como pessoa competente (a RTP demonstra-o), mas parece que o síndroma "Gomes da Silva" está a alastrar-se por todo o Governo, fazendo com que todos os outros andem "encostados à parede" para que não reparem neles.

"Pobre País" segundo JPP

A não perder o historial de Pobre País por José Pacheco Pereira no seu Abrupto. É revelador do estado deste POBRE PAÍS.

quarta-feira, 20 de outubro de 2004

Bibliofilias II

carter
Um verdadeiro clássico da bibliofilia que faltava na minha colecção, oferecido pelo meu caro amigo Lourenço Lancastre de Sousa, gerente da livraria Supico & Sousa na Rua do Século, Lisboa.
Existe semelhante em Portugal. Dicionário Técnico dos Termos Alfarrabísticos por Paulo Gaspar Ferreira, pela In-Libris. Paulo Ferreira é filho de um dos maiores livreiros portugueses, Manuel Ferreira, que publica catálogos regularmente.

Bibliofilias

Está para breve a saída do prelo do meu primeiro catálogo como livreiro alfarrabista. Disponibilizarei uma versão electrónica assim como enviarei o catálogo por correio a quem desejar.
É a minha estreia independente neste belo mundo da Bibliofilia.

OUTRAS NOTÍCIAS
VIII Salón del Livro Antiguo em Madrid, de 2 a 6 de Novembro no Hotel Reina Vitocria, Plaza de Santa Ana, 4, com a presença de livreiro português - Pedro Castro e Silva. Estarei por lá nesses dias.

Pedro de Azevedo tem Leilão de livros para breve, assim como Luís Burnay e o Palácio do Correio Velho.