quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005

Diabos à Solta

Não vi o debate. Não quis saber. Afinal que coisas poderiam eles dizer que me interessassem? Nada. "Valores mais altos se alevantavam". Foi meu Pai que me disse: "Olha! O Jerónimo de Sousa está afónico e teve de sair". Tive pena do sr. Só isso, pena. É que ele parece uma figurinha tão simpática que até mete dó quando alguém o fere de morte. Gostei particularmente do coitado a tentar desenrrascar-se perante a pergunta sobre como se sentia depois da morte da Irmã Lúcia. Será que o jornalista é estúpido ou faz-se? Como é que o Jerónimo de Sousa se iria sentir perante a morte da Irmã Lúcia? Há perguntas que não lembrariam nem ao Diabo que, ultimamente não tem precisado de aparecer por cá, os autóctones dão conta do recado...

terça-feira, 15 de fevereiro de 2005

Levanta-te e (não) ri

Há muito que não vejo tal programa com regularidade. Há muito que o programa passou a fazer parte do zapping. Mas tenho reparado numa coisa preocupante. Quando sintonizamos o canal 3 da nossa televisão às segundas feiras de madrugada reparamos no canto oposto ao logotipo da SIC um círculo encarnado. Ora, tenho para mim que aquele círculo tem como significado não ser aconselhada a presença de crianças ou pessoas susceptíveis seja lá ao que fôr - violência, sexo, violência verbal, etc.

Mas já repararam que na plateia é constante a presença de crianças, algumas bem pequenas?

Não existe em Portugal uma entidade reguladora de espectáculos que os classifica? Está o espectáculo do "Levanta-te e Ri" classificado? Se está como estão presentes crianças na plateia? Quem as deixa entrar?
Mas não é só problema da produção do programa. Porque deixam os pais que as crianças estejam presentes? Já agora o programa passa madrugada dentro, não era suposto as crianças estarem deitadas?
Quanto ao programa? É fraquinho, contendo apenas alguns bons rasgos quando vão os que realmente interessam. Talvez o programa melhorasse muito se criassem um maior painel fixo com gente de qualidade e apenas levassem um ou dois convidados.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2005

Um "Neo-Con" patético

Hoje comprei a revista Nova Cidadania, um revista Neo-Conservadora cujo seu director, na boa tradição neo-conservadora que tanto presa (recordo Irving Kristol), foi Maoista e outros "istas" que não vale a pena recordar. O Dossier deste último número (23, Jan./Mar.2005) é sobre o "caso Buttiglione" que não quero recuperar (aliás a revista prima pelo anacronismo). O Director da revista, deve dizer-se, é um "gentleman", fundador do polo português da Winston Churchill Society, que muito presa a cultura inglesa e muito despresa a cultura mediterrânica, em particular a portuguesa. Seguindo esse gosto muito particular afirma no seu artigo intitulado "Rocco Buttiglione: Um Senhor" publicado originalmente em Outubro de 2004 no Expresso (que não leio por princípio):

«Rocco Buttiglione, um scholar distinto, começou por ser submetido a um interrogatório moral absurdo no Parlamento Europeu. Perguntaram-lhe o que pensa do casamento, das mães solteiras e da homossexualidade. Ele podia ter contornado habilmente as questões. Mas é um senhor e respondeu como tal.»

Confesso que fiquei desapontado. Depois do "scholar distinto" esperava qualquer coisa como "Mas como é um Sir" ou "um gentleman". Mas não, saiu um verdadeiro "tripeirismo" (por quem eu tenho uma enorme estima): "Buttiglione? Buttiglione? Buttiglione é um senhor, carago!" expressão que deve ter sido escrita por entre um grande gole num "penalti" de tinto.
Na verdade a patetice é tanta que nem o Sr. Director percebe o quão patético é.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2005

Rato de Livraria

Já está criado o Blogue Rato de Livraria dedicado em exclusividade a coisas relacionadas com a Bibliofilia e o mercado dos livros antigos em Portugal.
Já passaram alguns "posts" por aqui dedicados a essa temática, mas achei que seria útil juntá-los num único espaço por forma a facilitar consultas e leitura para os interessados nestas coisas.
Aceitam-se sugestões de temas para futuros "posts".

segunda-feira, 10 de janeiro de 2005

Bibliofilias

No próximo dia 19 de Janeiro vai decorrer um Leilão de Livros na casa leiloeira Leiria & Nascimento.
O leilão será no Pavilhão de Exposições do Instituto de Agronomia - Tapada da Ajuda, e a exposição será Domingo, 16.01, das 15h00 às 20h30 e Segunda-Feira, 17.01, das 10h00 às 20h00.
O responsável pela feitura do Catálogo é José Vicente, proprietário da Livraria Olisipo.

terça-feira, 4 de janeiro de 2005

Militância

Na inocência do adolescente que já fui, encontrei-me um dia com um Partido político do qual fui militante activíssimo. Recordo a primeira vez que entrei no pequeno apartamento que serve de sede. As paredes frias, o mobiliario, saído de uma qualquer agência da Caixa Geral de Depósitos, era de tal maneira belo que apenas se encontrava a cor cinzenta, mesmo na mais colorida das peças. O "salão" com cerca de 20 metros quadrados estava repleto de cadeiras (todas as que existiam na casa) dispostas em filas simetricamente arrumadas. Á frente, na mesa da "presidência" estavam sentadas três pessoas, a do meio, o recém-eleito Presidente da Junta, bramia contente todo o apoio que lhe tinham dado. As outras, nos flancos, fingiam que o mérito devia ser entregue, inteirinho, para o recém-eleito. Sorriam. O resto da sala estava semi-vazia para mim, para o Presidente da Junta, congratulando-se com a vasta audiência, semi-cheia.
Senti-me desapontado. Antes de me tornar militante tinha como paradigma político os discursos na Assembleia da República vazios de ideias, mas cheios de bélicas palavras que ferem e matam o adversário. Durante mais de meia hora trocaram-se elogios, contratulou-se pela vitória eleitoral, deram-se vivas pela derrota do adversário mais temido que governava a Freguesia fazia mais de uma dezena de anos. Ao fim daquela meia-hora, que me pareceu muito mais tempo, acreditei que a militância vivia realmente preocupada com o bem estar da população governada. Imaginei o Presidente da Junta a discursar para o povo ao som de "hurras!", imaginei-o a trabalhar no seu gabinete todos os dias como se fosse o último, imaginei-o a receber a população e a resolver, ou pelo menos procurar resolver os seus problemas. Enfim, imaginei que, afinal, um Partido Político era uma coisa séria, cujo principal objectivo fosse o bem comum e não o seu próprio bem.
Fiquei assustado. Não queria pertencer a um Partido assim. Contava com lutas internas acesas, enormes poças de sangue e muitos mortos que um dia ressuscitam sabe-se lá com que milagre.
PUM! De olhos esbugalhados reparei numa enorme espingarda carregada de farpas que uma senhora trazia. Tinha disparado o engenho. O meu coração batia a mil à hora. O ferido levantou-se, arrancou a farpa do peito. PUM! engenho de novo disparado e mais uma vez o ferido levanta-se. A sala espantada com o herói e com o desaforo da atiradora bramia uivos de guerra enquanto aparecia um arsenal bélico de enorme envergadura. Sozinha, ferida de morte, ainda teve tempo de dizer "eu voltarei!" antes do seu último suspiro. O herói, pensei eu ferido com gravidade, saiu ileso. Trazia consigo um colete à prova de farpas que, orgulhosamente mostrou à audiência eufórica - era o resultado das eleições.
Fiquei aliviado, afinal não se trocavam argumentos. Podia voltar tranquilo.
Voltei e fui sobrevivendo aos ferimentos provocados pelas investidas dos inimigos. Um dia fui brutalmente assassinado por um doutor licenciado em Direito, já a trabalhar num escritório, ao qual lhe faltavam quatro cadeiras para concluir o curso. Ainda pensei defender-me com tal peça de artilharia, mas, esgotado dos ferimentos que me tinham sido infligidos e das cicatrizes de alguns anos de militância activa, lembrei-me da senhora que tinha visto naquela reunião e, também num último suspiro disse: "Eu voltarei...!"

P.S.: Texto dedicado a todos os militantes do PS que, sabe-se lá como, mas sabendo-se muito bem porquê, aparecem nestas alturas com sentimentos muitíssimo altruistas. Ah! Já agora, nunca mais voltei.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2005

Morte

cezanne.skull


Não acham que isto seria notícia de primeira página em qualquer jornal diário se se tratasse de qualquer outra religião?
Por momentos lembrei-me de Buttiglione assassinado que foi como um mártir apenas por ter cometido o maior dos pecados, ser católico. Que seja. Continuo a não me envergonhar da minha Fé, mesmo não tendo vocação de mártir.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

Governo panfletário

Hoje o Santanete-Mór escreve isto a defender o panfleto do Orçamento. Perguntas estúpidas ao Santanete-Mór (precisamos de nos fazer entender num diálogo):
1. gratuita quer dizer que está incluído nos 3.000 € que eu paguei ou nos 500 € que vem dos bolsos de um ilustre desconhecido?
2. expedito significa que se faz propaganda planfletária sem ser acusado de uso indevido de dinheiros públicos? (lembram-se de Edite Estrela?)
Só hoje tive oportunidade de ver o tal panfleto. Quando vejo aquelas fotografias lembro-me de um sketch do MAD TV chamado Lowered Expectations: o pôr do Sol, um casal de obesos a caminhar de mãos dadas em contra-luz e, por fim, o homem a picar-se no arame farpado. O que nos vale é que, parafraseando Eça nas suas Farpas, temos o Santanete-Mór como um dos mais poderosos homens da comunicação social e rimos, o Governo Governa e não gere como seria suposto e rimos, a oposição é triste e rimos. Um dia Portugal vem abaixo e nós, como não podia deixar de ser, rimos.
Continuemos a rir, porque rir é o melhor remédio.

Gestão? Qual Gestão?

Dei-me ao trabalho de consultar um diário português o DN e procurar as notícias referentes à acção governativa deste Executivo. Fiquei-me pelo DN e só pelos últimos três dias (o tempo não dá para mais e lanço aqui o repto para que outros o façam, seria interessante). Antes da lista uma pergunta, já que não tenho nenhuma formação jurídica. Alguém me explica quais são os limites de um Governo de Gestão? É que, sinceramente, este parece estar em plenas funções.

A lista, por ordem cronológica decrescente:
23.12.04
Fundo de Pensões da CGD e lucros da Galp
Para enganar a Europa e a nós.

Vencedores de Loures conhecidos até dia 15
A decisão sobre quais os consórcios que passarão à fase final do concurso para a construção do Hospital de Loures será tomada dia 15.01.05.

Inglês vai ser obrigatório a partir dos oito anos
Parece que a medida é consensual entre PS e PSD, mas a verdade é que a medida "está já a ser estudada pelo actual Executivo".

700 mil euros para projectos em Braga
"O secretário de Estado da Administração local, José Cesário, deixou ontem, no distrito de Braga, uma comparticipação de 690.452 euros, no âmbito de 19[!!!!] contratos-programa de financiamento de equipamentos..."

22.12.04
Funerárias temem fim de três mil postos de trabalho
Uma alteração legislaliva aprovada em Conselho de Ministros.

Acordo de 41 milhões de euros entre Portugal e São Tomé
Assinatura de um programa de cooperação para os próximos três anos no valor de 41 milhões de euros.

21.12.04
Contratualização do serviço publico avança em 2005
"O Governo espera ter o diploma sobre as obrigações de serviço público de transportes em aprovação no início do próximo ano..."

Novo Hospital de Braga estará concluído em 2009
Lançamento do concurso internacional para o novo hospital de Braga.

Carta imaginária

Há muito tempo que não enviamos uma carta um ao outro. Quebro a regra recentemente estabelecida. Gosto, de quando em quando, de quebrar com as rotinas.
Pensei, primeiro, escrever-te com o pretexto de uma mensagem de Natal. Mas confesso que as mensagens de Natal me incomodam, são sempre a mesma conversa de circunstância, com frases feitas e nada originais e que, tantas e tantas vezes, não são o espelho de um sincero sentimento, antes uma espécie de “Maria vai com as outras” faladas ou escritas. Postais de Natal também não podia ser, enquadram-se na mesmíssima moda de dizer que todos estamos bem uns com os outros.
Sim, é verdade que se poderia a proveitar o momento. Não creio, no entanto, que esse aproveitamento possa ser capaz de produzir genuínas alterações de espírito. São mais o reafirmar de uma hipocrisia geralmente sentida e consentida.
Por isso não te escrevo para enviar mensagem de Natal. Não me ouvirás dizer “Santo Natal e Próspero Ano Novo para ti e todos os teus” ou “Que o melhor de 2004 seja o pior de 2005”. Escrevo apenas para te escrever. Supro assim uma falta grave no meu espírito, escrever aos amigos com profundo e sentido estado de alma que me impele para os que me amam. É quase um impulso que não consigo conter. De vez em quando ele aparece e não descanso enquanto o não fizer.
Amar é, também, dizer presente. Que melhor maneira de dizer presente que umas quantas frases desgarradas de sentido óbvio? Não conheço nenhuma outra, com excepção de todas as outras. Talvez um telefonema, uma moderníssima MMS ou a antiquíssima SMS (ainda estou para descobrir o significado de ambas as siglas - será que importa?), um café e/ou um passeio com o pretexto da prenda, um jantar num qualquer restaurante oriental onde podemos saborear aquele fantástico “sumo nananja chinês” ou um “Pato à Pequim” que de Pequim só mesmo o nome (talvez do pato também, mas também não quero saber) ou um simples encontro no adro da Igreja para uma saudável troca de olhares cúmplices, mas não muito. Tudo para uma conversa de circunstância “Estás bom(boa)?” ou, à brasileira, “Tudo bem contigo?”, “A família?”, “Então adeus! Santo Natal e Bom Ano Novo!”.
Quero muito mais que isso, e o muito mais que isso solta-se num voar de dedos pelas teclas de um qualquer teclado onde quer que ele esteja. Aqui, na China, no Japão, nos Estados Unidos da América do Norte, na Índia, no Cazaquistão a solidão combate-se conversando com o eternamente ouvinte e sempre calado teclado. Depois esperamos que um vírus se abata sobre nós, que não haja qualquer cura já encontrada nos médico-programas, e tudo se vá tal como veio – depressa. Sempre é melhor sorte para um ficheiro que o delete, muito mais voluntário, logo terrivelmente assustador para a consciência bem formada que possuimos. Este sentimento estranho de querermos o que não queremos, de nos dedicarmos horas a fio a uma escrita cuja sorte está ao acaso de uma tecla – o delete – é estranha. Acontece recorrentemente e nada há que possamos fazer. Pergunto-me como fariam os antigos. Atirariam o papiro ao fogo dos deuses? Raspariam o pergaminho para que pudesse ser usado novamente em qualquer outra carta bem mais importante? Ou simplesmente não viviam sós, mortinhos por afogar a penosa solidão numa qualquer carta? Não tenho resposta ou não a quero encontrar.
Concluo: somos sós acompanhados por uma multidão. Contradição absoluta, mas paradoxalmente verdadeira. Perdemos a capacidade de conversar uns com os outros. E os outros passam por nós, vivem em nós e depois desaparecem por circunstâncias que não controlamos e que, vá-se lá saber porquê, existem. Porque existem os esposos? Porque existe a noção de espaço e tempo? Porque sentimos o espaço como o mais grave impedimento? Porque existe tempo e o olhamos como algo que acaba instataneamente? Existem porque existem, nada posso fazer. Excepto escrever-te, a ti, amigo que já foste.

P.S.: Santo Natal e que o melhor de 2004 seja o pior de 2005.