domingo, 18 de fevereiro de 2007

vem aí

- vem aí
talvez tenham sido estas as últimas palavras. sereno. enquanto rezava a sua Mãe pedindo-lhe que intercede-se por ele junto de Seu Filho. era-lhe devoto. muito devoto. encontrava todos os dias no regaço de Maria o primeiro encontro com o colo da sua Mãe chorosa de alegria que o acalmou da violência do seu próprio nascimento. era no regaço de Maria que chorava pelas ovelhas tresmalhadas do seu rebanho. era no regaço de Maria que encontrava a força interior para deitar abaixo os muros das dificuldades paroquiais. era no regaço de Maria que ele próprio queria encontrar-se com o seu muito amado Deus.
- vem aí
já no-lo dizia há muito tempo. estivemos juntos pela última vez há cerca de um ano. celebrávamos a morte de Cristo. a sua Páscoa. e do alto de uma varanda. emocionado com a sua própria doença. mas forte como um trovão que vem dos céus. pregou as privações e as alegrias nas privações. a enfermidade e as alegrias na enfermidade. a ausência de Deus e a certeza que não se é feliz sem Ele. do alto daquela varanda cinzenta. tristonha. igual a tantas outras varandas de um qualquer subúrbio urbano. desprovida de beleza. de alegria. perante o enterro do Senhor. da morte. do cenário mórbido de um Homem prostrado na cruz. achincalhado pelo ácido das palavras. poscrito até pelos seus. torturado até ao limite inimaginável das forças humanas. e por fim morto na humilhação da Cruz. ele. homem de fé. pregou a vida. pregou a esperança. pregou a alegria que só entendem os que vivem naquele mesmo Homem humilhado. e aquela mesma varanda. tristonha. igual a tantas outras varandas de um qualquer subúrbio urbano. de repente. encheu-se daquele homem que anunciava outro. e não mais aquela varanda podia ser tristonha e muito menos igual a tantas outras varandas. era varanda colorida pelas cores de um paramento que o enchia. que lhe preenchia a vida. que lhe dava a vida. não mais aquele enterro poderia ser enterro. mas um hino à vida. não mais os que o ouviam podiam chorar. mas antes alegrar-se.
- vem aí
já o sabíamos. na surdina dos nossos pensamentos. nos gritos das nossas orações. já o sabíamos. era segredo para todos que se desvendava no coração de cada um. era a certeza incerta perante o homem alegre. forte. generoso que se nos aparecia pela frente. sorria sempre. nunca um sorriso irónico. sorria com o sorriso de um pai que repreende. que se zanga. que se indigna. mas que ama. mas como podemos encarar a inevitabilidade da morte se é a vida que se nos apresenta aos olhos. única. feliz. perfeita até.
- vem aí
não conheci a sua história. não o conheci bem. apenas cruzámos olhares. palavras. trabalho até por uma ou duas ocasiões. poderia agora dizer que o lamento por ter a certeza ir encontrar um homem bom. mas não lamento. porque o meu coração estava aberto para receber de uma só vez o que Ele através dele me queria dizer. tudo o que fazia. desde a mais pequena das palavras que proferia à mais difícil e trabalhosa responsabilidade tinha uma única fonte. Deus. e hoje. dia triste da sua partida. sinto a ignóbil alegria de o saber no regaço de sua Maria como tantas vezes imaginou aqui...

à memória do Pe. Francisco José

sábado, 13 de janeiro de 2007

Diário de um Pai - Primeiro dia doente

- que se passa, filho?
sabia que um dia este dia chegaria. mas esperei sempre que não chegasse. esperei sempre que tal coisa pertencesse ao domínio dos outros. quis sempre só ouvir falar. e tive medo de quando este dia chegasse. não me sabem falar e eu não os sei ouvir. como saberei eu o que têm? como poderei saber se apenas as lágrimas de choro se atravessam no rosto numa língua que eu não conheço?
- que se passa filho?
diz minha Mãe sobre mim. descansamos no que nos dizem os mais experimentados. minha Mãe três, minha Sogra duas, minha cunhada quatro. e ainda assim como saberei quando chegar? que farei quando chegar?
- que se passa filho?
medimos a febre. assim que introduzimos o termómetro no ouvido o menino soltou o seu grito. é otite. talvez por causa dos dentes. tu. cada dente. cada otite. às vezes cansa estarmos sempre a ouvir a mesma coisa. às vezes cansa mais quando os mais experientes soltam Eureka como que a dizer que sempre tiveram razão. como se nós nunca lhes dessemos ouvidos.
esperámos mais um pouco. o ben-u-ron estava a fazer efeito já fazia três horas. jantámos. tranquilos. depois medimos novamente. novamente a queixa. a febra ainda. telefonei para a pediatra. sempre disponível. solícita.
- diz lá rapaz...
como se ao toque do seu telefone já soubesse que qualquer das crianças que também são suas precisam dela. como se toda a sua vida se tivesse preparado precisamente para aquele momento. o do telefonema de uma Pai à espera de uma solução milagrosa para o choro do seu querido filho.
há dias que anda rabujento. meio febril. desconsolado. dorme mal. come mal. desconfiamos dos dentes. todos nos dizem que são os dentes. cada dente cada otite,
- diz lá rapaz...
disse. medicou-o. corri para a farmácia. medicou-se o menino. e como hoje dormiu tranquilo. sereno. o meu menino que sempre foi. rabujento quando acorda como se lhe tivessem arrancado a melhor noite de sempre. desperto para o que o rodeia. desconfiado de quem lhe sorri.
segunda temos consulta. esperamos que tudo corra bem até lá. a pediatra também. mas aqui guardo o telefone logo no primeiro lugar da agenda para o que der e vier.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Vivo

- como está?
- vivo.
responde sempre da mesma forma. a vida passou por ele. não vive mais. espera a morte. sereno. o rosto marcado com vales dos rios e afluentes de muitas lágrimas não derramadas mas sentidas. um homem não chora. e no entanto
- vivo
como se aquela vida se resumisse agora às lágrimas que a aproximação da morte lhe deixa. foi Pupilo. demasiado civil para ser militar. demasiado militar para ser civil. um soldado não chora. e no entanto
- vivo
não vê. praticamente cego. ceifado que foi da sua maior paixão – a leitura – já nada mais importa. já só a morte espera. e no entanto
- vivo
como que gritando ao mundo para o deixarem viver. ler. olhar uma vez mais para as páginas do seu Amaro. do seu Basílio. do seu Mandarim. do seu peixe pescado em elevador de copa. dos seus incestos. das ironias farposas. tentou escrever. mas comparou-se. não podia deixar de o fazer. e escondeu a sua pequenez comparada na grandiosidade de quem lia com avidez. esquecendo que a sua grandiosidade está nas histórias que me repete esperando um particular interesse. histórias cheias de futilidades de uma vida tão rica quanto banal. simples. igual a tantas outras vidas. e no entanto são essas histórias de um passado que sabe não voltar que permitem que diga
- vivo
a cada vez que lhe pergunto
- como está?
responde sorrindo
- vivo
como que a dizer que vivo já foi e que morto não está. já não a razão manda. continua a comprar livros que ler não pode. a querer que uma imagem desfocada o faça recordar as exactas palavras que Eça deixou escritas. estupidez. admite. não vê. praticamente cego. e ainda assim eu o compreendo não compreendendo as razões de tal compreensão. talvez compaixão. talvez amor. talvez nada. mas compreendo com a compreensão de um dia não ficar assim. agarrado à única coisa que permite diga
- vivo
coisa que já foi mas não é mais. agora é peripécias maldosas de Pupilo. praxes a colegas. partidas a professores. ou o incómodo que lhe causou Basílio. e no entanto
- vivo
como qual primo gritasse pelas ruas de Lisboa
- a ela, a ela como Santiago aos Mouros
sendo a ela não a prima de quem Basílio era primo. mas uma morte que teima em o deixar vivo.
um dia chegará que não mais dirá
- vivo
para dizer nada. e nessa altura recordá-lo-ei com a simpatia de um jovem que pensa não morrer nunca Pai de outros dois que nem sequer na vida pensam e portanto não poderão dizer
- vivo
e chegará o dia quando eles pensarem que a vida é um tempo que não mais acaba que terei um história para contar. a história de um homem que comigo se cruzou por um mero acaso literário e que me respondia sempre
- vivo.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Diário de um Pai - ... que também é marido.

- estou atrasado.
abri a porta. os meninos estavam serenos. muito mais serenos que o costume. adivinhavam. dei-lhes um beijo que não era só meu. sorriram com aquele sorriso que nos faz esquecer todos os tormentos de uma vida levada a correr. fiquei ali um pouco. queria vê-los. agarrá-los ao colinho do mimo e deixá-los ali até que adormecessem.
- estou atrasado.
subi. o vapor do banho quente deixava uma névoa pela casa de banho. como meu D. Sebastião apareces-te ainda despida. sorris-te. sorri. o impulso do corpo empurrou-me de encontro ao teu. abracei-te. beijei-te a testa.
- estou quase pronta.
é o que respondes sempre. estás despida. o vestido vermelho de seda está pendurado no cabide do quarto. os sapatos ainda não foram escolhidos. o pincel. a esponja da base. o baton. o rímel. qual Pollock pegas num. largas outro. veloz. decidida. deixas que a abstracção da cor te ilumine o rosto. escovas o cabelo com os dedos que eu quis ser. e fui. fechaste os olhos. encostaste a cabeça ao meu regaço. deixaste-te ali ficar por instantes. sempre te entregaste assim. toda como és. e me obrigaste a cuidar de ti. num mimo que agora é todo deles.
- estou quase pronta.
num quase que nunca é quase. que é muito pouco quase. que é quase tudo. estás despida. e respondo com um sorriso. como sempre faço quando
- estamos atrasados.
- estou quase pronta.
mas hoje não. hoje não me aborreço. não sorrio irónico. sorrio-te com um amor que sempre te tive. que sempre te terei. que sempre quis dar e tão só contigo encontrei a quem.
- estamos atrasados.
entro no duche como nunca quero. apressado. gosto que a água caindo entre em mim para que eu entre em mim com ela. querendo tantas vezes que sejas a água. que vás caindo pelo meu corpo. suave mas decidida. quente. amante.
- estou atrasado.
apresso-me. desfaço a barba. ponho os cremes. visto a camisa.
- estou pronta.
estás mesmo. ajudas-me a ajeitar o laço. pões o cachecol pelo pescoço. vestes-me o sobretudo. pelo espelho. pelo canto do olho procuro-te. apenas consigo vislumbrar luz. cor. intensidade. pego-te pelo braço. ponho-te à minha frente. estás linda. és linda. como sempre foste. escondida por entre os biberons. as fraldas. a loiça da cozinha. o fogão. o trabalho. nos nossos encontros tão breves quanto intensos em bares repletos de amigos que sempre me invejaram. na escuridão de um olhar que é só nosso. és linda.
- estamos prontos.
- divirtam-se.
os meninos dormem a noite toda. algum problema liga. está aqui tudo.
- divirtam-se.
bem quero. não consigo esquecê-los. ainda agora estou com eles e já não os quero largar. deixar. tu igual. pior que eu.
- divirtam-se.
olhei-te. fomos. ansiosos. porque nos reencontramos os dois. porque os deixamos. a noite é por nossa conta. mas na nossa conta lá estão eles. impossível de os apagar mesmo que por momentos. ainda assim fomos. ansiosos.

as colunas são sempre as mesmas. e a sua história tão grande que sempre diferentes dizem-me sempre algo novo. hoje diziam
- estás linda.
deste-me o braço. feliz por ali estares. por ali estarmos os dois. não outros dois quaisquer. nós dois. senti-me o centro das atenções. eu deslumbrava-te. tu deslumbravas-me. um deslumbre impossível de não reparar de tão grande. reparei na inveja dos homens que me olhavam
- é linda.
primeiro pecado mortal. é escândalo o que fazemos. segundo pecado mortal. és linda. estás linda. levanto o peito orgulhoso. terceiro pecado mortal. que seja. que a morte me leve agora para os confins do Inferno que lá arderei com deleite ainda antes de chegar ao sétimo pecado mortal. deleite de te ter tido. de te ter conhecido. de te ter amado. de ser amado. subimos.
- estás linda.
subimos. segurei-te numa mão. levantavas com a outra o vestido. guardei o melhor lugar para ti. porque só mereces o melhor. enquanto o espectáculo durou não consegui tirar os olhos de ti. absorvida que estavas pela voz doce e forte do Scholl choraste. sorriste. ficaste melancólica. alegre. todo um turbilhão de emoções que sentimos quando ouvimos a mesma voz em casa agora exacerbados pelo calor de o ter ali bem perto. com a certeza que afinal existe mesmo. é real aquela voz de deus. fui eu quem te deu a conhecer esta voz. recordo. estavas renitente. mas ainda assim abriste o espírito não para que o Scholl entrasse no teu coração. mas porque eu que já o tinha invadido. que era já o seu único dono. ouvias todas as minhas explicações. o meu entusiasmo quase delirante por tão grande voz. não tanto deslumbrada por ela. mas mais por mim. e eu que tanto dele gosto. praticamente não ouvi.

vais dizer
- amei.
e disseste. toquei.
- boa noite.
entrámos. levaram-nos para o bar enquanto preparavam a mesa. pediste um sumo de laranja. eu um vodka martini. não porque quisesse parecer um espião galã. mas simplesmente porque gosto. enquanto preparava as bebidas o barman olhou-te.
- é linda.
e olhou-me. a inveja. coisa feia. sorri desportivamente. subimos. o ambiente a meia luz. de um amarelo quente que favorecia o vermelho do teu vestido. a luz do teu rosto. jantámos tranquilamente. falamos de tudo e de nada. pequenas futilidades da vida. os amigos. o espectáculo. e nem uma palavra sobre os meninos. estás a conseguir. e eu também. não esquecer. porque não se esquecem. mas a deixar que nós e apenas nós sejamos donos do momento. levei-te até ao Guincho. bem sei o quanto gostas de ver a lua a fazer o mar brilhar. e nem sequer suspeitas que hoje. mesmo com a lua cheia. não é o mar que brilha. o carro deslocava-se com vagar. chegámos ao hotel. o recepcionista olhou-te
- é linda.
sorri. levei-te pelo braço. deixaste-te vir. tranquila. serena. entegando-te como nunca o tinhas feito antes. e eu recebi-te. amei-te. mimei-te por entre um beijo. sussurro. suspiro.
- és linda.

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Eu sou pelo NÃO a estes bloguistas

Diário de um Pai - desconheço-o

cheguei cedo. não tão cedo quanto gostaria. mas mais cedo que o habitual. muito mais cedo que o habitual. e ainda assim não vos encontrei. haverá um dia em que dirão
- desconheço-o
são milhões de palavras que todos os dias leio. centenas de lombadas. capas de brochura. encadernações em marroquim vermelho. meias amador de pele. primeiras ou últimas edições. segundas. terceiras. tiragens especiais de meia dúzia de exemplares. ou de milhares. tudo isso me absorve o dia. o suga vorazmente sem que dê conta. e eu com ele. desaparecido com o folheto que se esconde por entre as grandes lombadas.
- desconheço-o
como a lua desconhece o dia. todos os dias ela espreita. quer conhecer o sol. abraçá-lo. dizer-lhe que o ama. dizer-lhe olá. eu sou a lua. eu sei que és o sol. há uma infinidade de tempo que te quero conhecer. mas chega sempre tarde. já o sol se foi. já o dia se apagou. já a noite caiu. e com ela a lua. triste. melancólica.
- desconheço-o
tento. sofro de manhã quando parto. sofro à noite quando chego. queria conhecerem-me. desconhecem-me. queria um só beijo dissesse quem sou. queria um só sussurro fosse fotografia que guardam na memória. queria uma só carícia me revelasse.
- desconheço-o
e não sabem que me esforço para vos dar tudo. e ali estão a prová-lo. o leite. as fraldas. a senhora que estudou oito anos. o colégio. o desporto. os livros. os brinquedos. e tudo afinal é tão pouco. falto eu. faltam-me a mim. a mim me fogem. são a lua do meu dia que me quer conhecer e não consegue. de quem fujo sempre. sem que o queira. simplesmente fujo com as lombadas. o marroquim vermelho. a meia amador de pele. levam-me. não quero. mas vou. tenho de ir. se não for não haverá o leite. nem as fraldas. nem a senhora que estudou oito anos.
- quem é mãmã?
sou eu. parte de vós. vós parte de mim. e ainda assim.
- desconheço-o
a mãmã ali está. todos os dias. todas as noites. todos os milímetros de vós. invejo-a. pecado mortal. preparai as portas do Inferno que para lá irei com gosto. invejo-a. que seja pecado. que me atormente a eternidade. invejo-a.
- quem é mãmã?
- desconheço-o.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Diário de um Pai - Vacinas

vai chorar. vai doer. dói-nos a nós. no fim acabam por se mostrar mais homens que eu. choramingam. já chegou a nem ser isso. nada. absolutamente nada. talvez mais velhos lhes custe mais. a consciência do que vão fazer impedi-los-à de querer ir. ou pelo menos manifestarão a vontade de não querer ir.
vou desmaiar. era assim que avisava a enfermeira quando se preparava para me dar a vacina. vou desmaiar. nem olhava. não queria ver. respirava fundo. procurava abstrair-me. não abstraía. é como iman. atrai. não queria olhar. mas olhava. vou desmaiar. não vais nada. vou desmaiar. comeste? comi. vou desmaiar. irritava aquilo. tenho a certeza que irritava. vou desmaiar. já está e não desmaiaste.
na escola. dia de vacinas. não custa nada. olhava para os colegas e as colegas mais nervosos e dizia. não custa nada. procurava distraí-los. não custa nada. disfarçava com isso o meu nervosismo que só alguns percebiam. vou desmaiar. não custa nada. havia os fortes. de peito levantado. olhar de frente para a enfermeira. olhar de esguelha para as miúdas. não custa nada. havia os indiferentes. tinha de ser. não valia a pena lamentar. e como também não gostavam. não merecia levantar o peito. não custa nada. havia os que tremiam ainda antes de se levantarem da cama. vou desmaiar. não custa nada.
sorrir. no fim todos sorriam. foi dia sem uma das aulas. foi dia livre. pudemos ir jogar à bola. conversar. ler o jornal que orgulhosamente se ostentava para fazer figura de intelectual. ninguém desmaiou. não custou nada. e todos nos divertimos no fim.
não estarei lá. dói-nos mais a nós vê-los serem picados. são mais homens que nós. logo irei saber que se portaram bem. serão fortes. e eu não estarei lá para ver mais um milímetro que passa. eles contar-me-ão logo no banhinho. e eu irei ficar a saber que são mais homens que eu.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Recordar a minha Avó

- Parabéns Avó.
hoje comemora-se o nascimento de minha Mãe.
- Parabéns Avó.
no caminho para o escritório lembrei-me de si. tenho saudade. lembra-se dos bolos que comi. das massas que mexi. dos brinquedos que me deu. do mimo e atenção que me dedicou? eu lembro.
hoje olho para a sua filha. minha Mãe. Avó dos meus filhos. e a minha esperteza de criança pedindo-lhe o que a sua filha não me queria dar. a Avó dava. às escondidas para que a sua filha só visse depois de eu já ter o brinquedo na mão.
- Parabéns Avó.
faz hoje cinquenta e dois anos que a Avó deu à luz sua filha. minha Mãe. e todo o seu percurso de vida feito de enxadas. terra cavada. vinda para Lisboa. tabuleiros de bolos. massas. ovos. cremes. subir e descer aquelas escadas da fábrica de bolos Castanheira. oferecer-me a chave do frigorífico para tirar umas fatias de torta. aquela torta que eu mais gostava. os estrunfes. os legos. os carrinhos. o dinheiro no Natal que escrupulosamente colocava num envelope na árvore lá de casa. os almoços. os jantares nos restaurantes. os copos de vinho que nunca dispensou. os risos que me provocou. as dores por que passou enfiada dias. meses. em camas fechadas ao mundo. encarceradas no espectáculo da dor. do sofrimento. enquanto senhoras de branco. homens de branco. tudo de branco. se passeavam por entre corredores de branco imunes. às vezes até indiferentes a essa dor. as operações. as melhoras. as pioras. por fim uma vida nova. um renascimento. para afinal o seu percurso de vida terminar como o de toda a gente. sete palmos debaixo de terra. choro. dor. tenho saudade.
- Parabéns Avó.
hoje sua filha. minha Mãe. é a Avó. e eu sua filha. os meus filhos vão crescendo com sua filha a querer ser a Avó. eu a querer ser a sua filha. os mesmos bonecos que eu não quero dar. escondidos de mim até se revelarem nas mãozinhas que seguram alegres pela conquista. lembro-me de mim. não posso ralhar. tenho saudade.
- Parabéns Avó.
queria que estivesse aqui. para dar os brinquedos que eu não quero dar. a somar aos brinquedos que sua filha. minha Mãe dá. dariam muitos brinquedos. muitos envelopes na árvore lá de casa. e muita alegria. tenho saudade Avó. tenho saudade.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

Diário de um Pai - A primeira papa

domingo. estava já tudo preparado para a primeira papa. foi um pouco mais cedo do que o marcado pela pediatra para que eu pudesse estar lá. queria estar lá. estive lá. mais uma fase da vida dos meninos que passa por nós sem que demos muita conta. olhamos para o lado e mais um milímetro passou.
de manhã à Missa na minha Paróquia de origem. chegados a casa preparámos tudo para o grande acontecimento. a Mamã insistiu com a máquina fotográfica. tirou uma foto. eu e o "Quico". começou bem. agarrou-se à papa com unhas e dentes. literalmente. preciso se apurar a técnica de lhe segurar na mão para não ir ao encontro da colher. "Come a papa, Joana come a papa...". não. não cantei. mas apeteceu. lembrei-me das figuras ridículas dos pais e dos traumas infatis.
o Bernardo ficou com a Mamã. comeu melhor que o maninho. o Francisco quis comer papa como mama biberon. não resulta. claro. choro aqui e ali apenas calado com a rolha da tetina que de vez em quando se metia para o ir habituando à mudança. comeram tudo. a papa e o resto do biberon. hoje há mais do mesmo. mas não estarei lá. infelizmente. a Mamã ficará com essa memória para si. é desvantagem esta de estar a trabalhar. tem de ser.
penso muitas vezes na desvantagem de ser Pai. para as mulheres é processo biológico esse o da ligação às crianças. aos seus filhos que viram nascer. aos seus filhos que sentiram crescer. aos seus filhos que lhes custou a fazer nascer. nós. ao contrário. é processo mental que muitas mulheres também esquecem. para nós a relação com os filhos é criada como se fosse uma outra qualquer relação humana. é uma interiorização de que aqueles e não outros são. de facto. nossos filhos. e pensar que aqueles são os nossos filhos não é fácil. principalmente quando não possuímos a graça de os poder amamentar. de os poder carregar no nosso ventre. de os poder trazer ao mundo. por isso é tão importante para mim estar lá nestes pequenos momentos. foi a forma que encontrei de colmatar a falha de não ser mulher. parêntisis. não interpretar mal. fim de parêntisis. e assim vou criando a minha relação com eles de Pai. de figura importante na vida deles. mas hoje não estarei lá. lamento.
estou certo que quando crescerem. quando adquirirem outras capacidades humanas que hoje não possuem. poderão até olhar para o Pai como uma figura igualmente importante na sua vida. ou até mais. mas agora. nesta fase. estou claramente em desvantagem. não estou lá. lamento.

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Diário de um Pai, 16 de Novembro

segunda feira. pediatra. aquela senhora que passou oito anos a estudar mais uns quantos durante o exercício da profissão e que por causa disso me leva uma pipa de massa da conta bancária todos os meses com o pretexto de cuidar da saúde dos meus filhos. parece-me sempre dinheiro muitíssimo bem empregue. mas não deixa de custar. estão óptimos os meninos. percentil 50/75. papas daqui a dez dias. vai ser lindo. já encomendei aventais para mim e para a Mãmã e dois babetes de tamanho XXL para os meninos. a nova cozinha irá conhecer nova iguaria. salpicos de papa pela parede chão e tecto adocicada com caretas à la carte produzidas directamente pelas lindas faces do Quico e Bernardo. pequeno parêntisis. Quico. novo diminutivo para evitar o vulgaríssimo “Chico” que é nome de macaco e de marca de biberons. fim de pequeno parêntisis. pode ser que não. a experiência promete. imagino o albúm das recordações que eu nunca tive com legenda “a minha primeira papa” por baixo da foto que zelosamente os papás lhes tiram. o pior é que o papá não é muito dado a esses “clic-clac’s”. prefere guardar nas raízes da sua memória esses momentos. como se só ele fosse o detentor da nossa memória. egoísta.
tranquilidade. foi isso que os meninos deixaram durante a consulta. despidos. tal como vieram ao mundo. não só da roupa. pareceu-me que até de preconceitos. deixaram facilmente que a senhora que passou oito anos a estudar lhes mexesse sem soltar um único som menos agradável. a senhora que passou oito anos a estudar diz que é da maior serenidade dos papás. principalmente da Mãmã que andava muito nervosa. o Papá sempre se revelou tranquilo. recordo a penúltima consulta. o “Quico” a berrar desalmadamente e o Papá conversando com ele como se o mundo se prolongasse indefinidamente. o “Quico” acabou por se acalmar. nesta última foi quase igual. não porque lhe apetecesse simplesmente refilar mas porque lhe deu dor aguda vá-se lá saber do quê. consolei-o. acalmou novamente. e lá ouvi a senhora que passou oito anos a estudar a dizer que o Papá tinha muita paciência.
paciência. tem limites. passamos o resto do dia nas compras. e eles sempre acordados. para o fim já nem o embalo do automóvel os fazia fechar o olho. chegados a casa o Papá dedicou-se ao bricolage pendurando os cortinados depois de lhes ter dado o biberon. arrotados. fraldinha mudada. fraldinha nas mãos. chuchinha na boca. prontos para dormir um grande soninho. o Papá sempre ao seu lado. conversava com eles enquanto a Mamã decidiu ir ao Intermarché fazer compras para o jantar de aniversário da Tia no dia seguinte. até que o volume do palrar transformou o palrar em birra profunda. o Papá lá foi. acalmou como pôde. nada resultou. como colinho estava fora de questão a solução foi ali ao lado ouvi-los berrar. até que o sono tomou conta da excitação e adormeceram. foi noite santa. como sempre nos deram. desde a nascença que aqueles meninos nos deixaram dormir “bem”. bem entendido este “bem” pelas Mamãs e Papás espalhados por este mundo fora.
terça-feira. dia de aniversário da Tia. trabalho para o Pai. chegado a casa. enquanto a Mãmã preparava a cerimónia cheia de pompa e circunstância. isto da arte de bem receber dá muito trabalho. o Papá lá foi todo vaidoso para dar o banhinho aos dois. já não fazia isso. dar banho aos dois sozinho. desde que a Mãmã tinha regressado do Hospital. sempre passou a ser repartido. o Papá a aquecer a aguinha. verificar a temperatura. ligar o aquecimento para que nada os atormentasse. pegar no pijaminha. preparar os biberons. medicamentos. cremes. fraldas. todo esse arsenal de coisas que é preciso. a Mãmã de volta da entrada. da sopa. do prato principal. da sobremesa. e o Papá cheio de alegria por poder estar com os meninos. há muito que o banho é dado com toda a calma do mundo. mas desde que o Papá regressou ao trabalho que o aproveita para pôr a conversa em dia. conta-lhes o seu dia. quer saber do deles. e eles ouvem e falam. e mesmo que o Papá não perceba patavina do que estão para ali a dizer. e muito menos eles o palavreado complexo e estranho que ele fala. prestamos toda a atenção uns aos outros. e assim nos ficamos a conhecer melhor. enquanto estou a dar o biberon ao Bernardo e a Mãmã faz pausa na pompa circunstancial do jantar para o Francisco dou conta das figuras ridículas que um adulto faz diante de uma criança com quatro meses. que conviniente eles não se lembrarem. Deus até nisso é bom para com os homens. lembrou-se de não nos dar a memória das figurinhas de nossos Pais. seria trauma para a vida inteira. e já chegam os maus tratos. as violações. a fome. a precaridade da saúde e da higiéne com que tantas crianças vivem por esse mundo fora.
é benção que adquire cada vez maior importância esta de ser Pai. mimar é a palavra chave. por isso tantas vezes me questiono se a minha dureza e disciplina que lhes procuro impregnar desde o seu nascimento não será fardo pesado demais. ao mesmo tempo procuro não ceder à tentação do lugar comum “são crianças”. procuro a medida de todas as coisas que é o bom senso e acima de tudo aquilo que afinal nos faz quebrar perante um sorriso doce. amor. e amar não é apenas mimar. é também ralhar quando necessário.