sábado, 13 de janeiro de 2007

Diário de um Pai - Primeiro dia doente

- que se passa, filho?
sabia que um dia este dia chegaria. mas esperei sempre que não chegasse. esperei sempre que tal coisa pertencesse ao domínio dos outros. quis sempre só ouvir falar. e tive medo de quando este dia chegasse. não me sabem falar e eu não os sei ouvir. como saberei eu o que têm? como poderei saber se apenas as lágrimas de choro se atravessam no rosto numa língua que eu não conheço?
- que se passa filho?
diz minha Mãe sobre mim. descansamos no que nos dizem os mais experimentados. minha Mãe três, minha Sogra duas, minha cunhada quatro. e ainda assim como saberei quando chegar? que farei quando chegar?
- que se passa filho?
medimos a febre. assim que introduzimos o termómetro no ouvido o menino soltou o seu grito. é otite. talvez por causa dos dentes. tu. cada dente. cada otite. às vezes cansa estarmos sempre a ouvir a mesma coisa. às vezes cansa mais quando os mais experientes soltam Eureka como que a dizer que sempre tiveram razão. como se nós nunca lhes dessemos ouvidos.
esperámos mais um pouco. o ben-u-ron estava a fazer efeito já fazia três horas. jantámos. tranquilos. depois medimos novamente. novamente a queixa. a febra ainda. telefonei para a pediatra. sempre disponível. solícita.
- diz lá rapaz...
como se ao toque do seu telefone já soubesse que qualquer das crianças que também são suas precisam dela. como se toda a sua vida se tivesse preparado precisamente para aquele momento. o do telefonema de uma Pai à espera de uma solução milagrosa para o choro do seu querido filho.
há dias que anda rabujento. meio febril. desconsolado. dorme mal. come mal. desconfiamos dos dentes. todos nos dizem que são os dentes. cada dente cada otite,
- diz lá rapaz...
disse. medicou-o. corri para a farmácia. medicou-se o menino. e como hoje dormiu tranquilo. sereno. o meu menino que sempre foi. rabujento quando acorda como se lhe tivessem arrancado a melhor noite de sempre. desperto para o que o rodeia. desconfiado de quem lhe sorri.
segunda temos consulta. esperamos que tudo corra bem até lá. a pediatra também. mas aqui guardo o telefone logo no primeiro lugar da agenda para o que der e vier.

3 comentários:

madalena&maurício disse...

Ficamos sempre inquietos quando algo não está normal.
Espero que já se encontrem bem.
E já agora, Parabéns: são Lindos!!!
Felicidades,
Bjs

Marlene disse...

Conheço bem esses telefonemas!!!

Estão enormes!!! e já agora, com quem é que são parecidos???

Bjs

Maria disse...

Não sei se alguma vez lerá isto.
Descobri-o quando procurava uma coisa de Camilo. O seu post é de 2004. Chorei. Já passei pelo mesmo e sei a dor que senti.
Vim procurá-lo a si. Fiquei contente por ver que tem um bebé e já neste momento deve ter todos os dentinhos. É um bebé lindo.
Eu já tinha dois, quando perdi o outro. Tive um rapaz uns anos depois. Mas sei que a dor da perda, não passa nunca.
Felicidades para o bebé e os pais. Mereceram-no